sábado, 16 de fevereiro de 2013

Dos homens sem coração


José Teodoro Prata

Escrever sobre os homens sem coração foi o desafio que me lançou, recentemente, o Vítor Batista. Não é terreno em que me sinta à vontade, mas sou suficientemente irresponsável para responder ao repto.
Antes de começar, uma declaração de interesses: sou de esquerda. Apartidário e com sentido crítico quanto baste, mas dessa esquerda inútil que entregou os portugueses ao neoliberalismo e não tem um projeto alternativo credível para o país.

A promiscuidade Estado-Empresas
            Temos de recuar umas centenas de anos para perceber a coisa. Após a Reconquista, o grande D. Dinis e outros que se lhe seguiram fizeram deste território o berço de um povo que em 1383-85 teve a força de dizer não e colocou um bastardo no poder, por ser isso que lhe convinha. E nas décadas seguintes aventurou-se nas descobertas, em feitos maiores que as atuais viagens espaciais. Havíamos atingido a maturidade.
            Mas D. João II reservou para si o rico comércio da Guiné e o sucessor D. Manuel considerou que não havia gente capaz de negociar na Índia e ficou com o bolo inteiro. Toda a gente trabalhava para o rei, até Luís de Camões, escrivão na feitoria de Macau. Mas o Oriente era longe e a missão arriscada. Por isso todos pediam um cargo ao rei, para depois, no terreno, o roubarem quanto pudessem. E foi esta a origem do chico-espertismo e da corrupção generalizada. Se a isto juntarmos a fuga dos comerciantes cristãos-novos, perseguidos pela Igreja, temos as razões da inexistência de uma classe empresarial forte e autónoma do poder político.
             De então até hoje, foi um contínuo calvário. Mesmo quando Portugal voltou a ter um projeto económico digno, era a mão de Pombal que tudo dava e tudo tirava. O liberalismo nada alterou, até porque a base da riqueza nacional continuou a ser o ganho fácil obtido nas colónias sob a proteção armada do Estado. Salazar foi um digno representante dessa economia, um pacóvio que em São Bento criava perus para cravar os ministros, por alturas do Natal, e entesourava o ouro no Banco de Portugal, enquanto os portugueses partiam, aos 100 mil por ano, como agora. 
            A democracia trouxe-nos a reconfiguração da economia, com os portugueses a substituírem a teta das colónias e pela mama da União Europeia, sem perceberem que esta não era de graça, como a outra.
            E os novos tempos trouxeram políticos novos, alguns de qualidade, porque forjados nas dificuldades, depois uns chico-espertos inúteis, filhos de todas as facilidades que a mãe democracia lhes proporcionou. Como bons herdeiros da secular aliança Estado-empresas, tratam de se encher, metendo diretamente as mãos na massa ou fazendo-se pagar por transferências para si ou para os seus partidos. Consta que sem isso não há negócio ou obra que seja autorizada em Portugal. Tudo à cobrança do contribuinte. E que dizer do cancro do BPN, um complô de antigos políticos, para se apoderarem do dinheiro dos seus clientes?

Em modo Relvas
            No início desta crise, um nobel da economia dos Estados Unidos protestava por a bolsa de Wall Street e as agências de rating estarem entregues a grupos de jovens encharcados em álcool e drogas, antigos alunos brilhantes, mas com um enorme desprezo pelos milhões de pessoas que arruinavam com os seus jogos financeiros. Vítor Gaspar é o nosso geniozinho caseiro, mas, como disse a CIP, na altura da TSU, nem para gerir uma empresa ele presta, pois quem sabe apenas uma coisa, não sabe nada! (A minha escola, muitas escolas portugueses, já há muito que estão organizadas para produzir estes monstrinhos: a receita é colocar os alunos apoiados pelo SASE e pela Educação Especial isolados numa turma, para não atrapalharem o desenvolvimento dos melhores. Se isto não é fascismo, o que é? Pedagogia?)
            O Coelho não enganou ninguém. Durante a campanha eleitoral, nas entrelinhas, ele foi apresentando o seu projeto, que agora se percebe melhor: reduzir o custo do trabalho na produção, em sintonia com o que se está a fazer noutros países da Europa. Isso permitirá ao sistema financeiro apoderar-se de uma fatia ainda maior do bolo. Por outras palavras, empobrecer-nos, através da redução dos salários e do aumento dos impostos. Por isso a TSU, a tentativa de transferir dinheiro dos trabalhadores para os patrões. Ele está-se borrifando para Portugal e até mesmo para o seu partido. Meteu o Franquelim no Governo e só não vai buscar o seu conselheiro Dias Loureiro se não precisar dele! A única coisa que lhe interessa é cumprir a sua parte do plano, assessorado por António Borges, o homem que entre nós representa este projeto financeiro global.
            Viram o sorriso com que Carlos Moedas defendeu a qualidade do estudo elaborado pelo FMI, a pedido e a partir de informações fornecidas pelo Governo? Ele sabia toda a maldade que o projeto contém, mas o sofrimento dos portugueses nem respeito lhe mereceu, mesmo sabendo o que nós só depois descobrimos: o documento foi elaborado com muitos dados falsos. Os fins justificam os meios.
            Depois da queda de Sócrates, a esperança de quase todos, nos diferentes quadrantes, era que os defeitos da anterior governação fossem corrigidos. À cabeça, a promiscuidade Estado-empresas e a arrogância iluminada de quem governa. Mas saiu-nos o Relvas, formado na universidade do chico-espertismo, que viveu de esquemas com o seu parceiro Coelho, para sacar subsídios da UE e se relacionar com países emergentes de quem pudesse tirar vantagens. Por isso não é demitido, embora já tenha afastado todos os que na comunicação social se lhe atravessaram no caminho. Ele e o Coelho têm um caderno de encargos e só podem separar-se quando as empresas do Estado tiverem passado para os privados, se possível aqueles a quem as prometeram. E do bolo ainda fazem parte algumas joias como a TAP, os Correios e as Águas de Portugal. Há que esperar, pois os melhores negócios ainda estão em carteira!

Por uma ética política
            Teoricamente, há duas instituições que ambicionam trazer à política a indispensável ética: a Maçonaria e a Opus Dei.
            Da Maçonaria faziam parte, no século XIX, muitos sacerdotes. Na província, eles foram mesmo algumas das figuras mais marcantes. Mas a Igreja terá proibido a sua pertença a esta organização laica. Se tivessem continuado, talvez a experiência da Primeira Republica não tivesse fracassado. Depois Salazar quase acabou com ela e agora vive dividida entre os que professam ainda uma ética republicana e os que se servem da Maçonaria para traficar influências, ao jeito de uma organização mafiosa.
            Da Opus Dei conheço tão pouco como da anterior. Sei que os fundamentalismos religiosos sempre representaram um enorme perigo para as sociedades. A existência de uma lista de livros proibidos é coisa de mentes perturbadas e lembra-nos o Índex da Inquisição. Para uma Igreja com tantas dificuldades, sempre, em sair do lado dos poderosos, ter a sua elite política, social e económica educada por esta gente é o pior que lhe podia acontecer e a Portugal também.
            Será nesta dificuldade dos portugueses de pensarem a política como um serviço à comunidade, no respeito pelo Homem, que estará a causa da falta de grandes políticos que nos tirem deste atoleiro? 

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Estou farto disto tudo !.........


Tiago Mesquita - Expresso.
8:00 Terça feira, 6 de novembro de 2012
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"Estou farto de ver o país sequestrado por corruptos. Farto de ver políticos a mentir. Farto de ver a Constituição ser trespassada. Farto de ver adolescentes saltitantes e acéfalos, de bandeira partidária em punho, a lamberem as botas de meia dúzia de ilusionistas. Farto de oportunistas que, após mil tropelias, acabam a dirigir os destinos do país. Farto de boys que proliferam como sanguessugas e transformam o mérito em pouco mais do que uma palavra. Farto da injustiça social e da precariedade. Farto da Justiça à Dias Loureiro. Farto dos procuradores de pacotilha. Farto de viver num regime falso, numa democracia impositiva. Farto da austeridade. Farto das negociatas à terceiro mundo. Farto das ironias, da voz irritante, dos gráficos e da falta de sensibilidade de Vítor Gaspar. Farto dos episódios inacreditáveis do 'Dr' Relvas, das mentiras de Passos Coelho e da cobardia de Paulo Portas. Farto de me sentir inseguro cada vez que ouço José Seguro. Farto de ter uma espécie de Tutankhamon como Presidente da República. Farto dos disparates do Dr. Mário Soares. Estou farto de ver gente a sofrer sem ter culpa. Farto de ver pessoas perderem o emprego, os bens, a liberdade, a felicidade e muitas vezes a dignidade. Farto de ver tantos a partir sem perspectivas, orientados pelo desespero. Farto de silêncios.


Farto do FMI e da Troika. Farto de sentir o pânico a cada esquina. Farto de ver lojas fecharem a porta pela última vez e empresas a falir. Farto de ver rostos fechados, sufocados pela crise. Farto dos Sócrates, Linos, Varas, Campos e outros a gozarem connosco depois de terem hipotecado o futuro do país. Farto da senhora Merkle. Estou farto de ver gente miserável impor a miséria a milhões. Farto da impunidade. Farto de ver vigaristas, gente sem escrúpulos, triunfar. Farto de banqueiros sem vergonha, co-responsáveis em tudo, a carpirem mágoas nos meios de comunicação social. Farto de ver milhares de pessoas a entregarem as suas casas ao banco. Farto de vergonhas como o BPN e as PPP. Farto de ver um país maltratar os seus filhos e abandoná-los à sua sorte. E, finalmente, estou farto de estar farto e imagino que não devo estar só."


domingo, 23 de dezembro de 2012

Até quando estamos dispostos a renunciar aos nossos direitos e à justiça?

Não restam dúvidas. O governo português (PSD/CDS), a oposição da área do poder (PS) e a oposição instalada (PCP, PEV e BE) trabalham a tope nas agendas próprias, alheados do estado real do país e das consequências da suas atitudes e das suas posições totalmente autistas.

A irredutibilidade de uns e dos outros é a única certeza e é a única estratégia com que podemos contar para enfrentar a grave crise com que nos debatemos. Uns dizem que o povo é o culpado porque vive acima das suas possibilidades e que, a partir de agora, temos que ser uns pobres desgraçados, do tipo Isabel Jonet (e... Fernando Ulrich) - pobrezinhos mas ordeiros. Os outros, clamam que não paguemos e que se lixem os credores, porque o povo é soberano. É assim que, dia após dia, debate após debate, os representantes que elegemos, no governo ou na oposição, tratam dos nossos assuntos e decidem das nossas vidas. Empurram para a frente e alternam-se, sem respostas, sem conclusões e sem soluções. Só conversa fiada de um lado e do outro.

Falhanço após falhanço, o governo actual e os que o antecederam contam e contaram com a brandura social e com a ausência de propostas credíveis de uma oposição responsável e preparada para fazer a diferença com um programa robusto, exigente e ajustado ao tempo. Todos os governos caíram de maduros mas, só depois de terem assaltado politicamente todas as instâncias do aparelho de estado e depois de terem saqueado os cofres das finanças públicas num esbulhe consentido e inimaginável de contratos, trapaças, subvenções... Hoje percebemos, pelas piores razões, o volume do roubo que nos foi feito por todos os partidos da área do poder e consentido pela irresponsabilidade das oposições irredutíveis. Essa percepção é, tão só, a medida dos sacrifício que hoje exigem a trabalhadores e a  empresários em Portugal. Cada um de nós, sabe quanto é... e, o dinheiro, que nos roubaram, sumiu-se do país e não foi parar ao bolso dos trabalhadores nem dos empresários sérios e que pagam os seus impostos. Ao contrário do que Ulriche's, Gaspare's, Coelho's, Jonet's, Borges e outros "especialistas"  e comentadores nos querem fazer acreditar!

Este é o resultado do preço do nosso alheamento, da nossa desresponsabilização e da nossa falta de participação cívica. Os actuais partidos acumularam um capital de poder inversamente proporcional à cidadania participativa e há lógica da representatividade. Ou seja, quanto menor é a participação dos cidadãos, maior é o espaço  de acção que permite a voracidade das máquinas partidárias, disciplinadas e hierarquizadas, sem excepção. Se de um lado assistimos a guerras fratricidas pelo poder (PSD/CDS/PS), do outro, estranhamente, somos espectadores das transmissões de poder oligárquicas (PCP/PEV/BE). A consequência deste establishment é a de perpetuar um regime sem prioridades económicas nem financeiras, sem prioridades sociais, sem prioridades culturais, sem prioridades ambientais, sem um pingo de moral, sem uma réstia de ética e sem gente de carácter que ponha o interesse de Portugal acima dos seus próprios interesses. É um país sem Estado real e sem Justiça!

Uns, olham para os cidadãos como um autêntico alvo a abater e encontram no suor do seu trabalho uma fonte de receitas justificada pela irresponsabilidade do povo (gastador) português sonegando-lhe os direitos adquiridos e a dignidade. Os outros, olham para os cidadão como vítimas inevitáveis de uma chacina que alimenta a razão e os argumentos da sua luta, perpetuada no populismo verbal, tipicamente parlamentar, de um status quo de aparente combate sem nenhum resultado prático.

Perante as denúncias concretas a que todos assistimos, exige-se que ao nível nacional, os representantes eleitos pelo povo tomem medidas extraordinárias. Os deputados da Assembleia da República foram eleitos e investidos pelo poder do povo, não foram eleitos pelos partidos, nem pelos interesses que prioritariamente representam. Exige-se proatividade, exigem-se iniciativas legislativas, exigem.se medidas urgentes e extraordinárias no tempo e no quadro do poder que lhes confiámos. Por outro lado, o poder judicial, tem que responder perante o povo sobre o que se está a passar na investigação e no julgamento de tantos processos que se arrastam e prescrevem. Os Juízes e o Ministério Público, têm que assumir, a partir da sua independência, a condução inequívoca das rédeas da Justiça sem preconceitos e sem rodeios. A justiça tem que responder à pergunta "porque é que Portugal é um dos países europeus onde a corrupção é o meio de influência mais utilizado e porque é que não existem corruptos? E, se a Justiça não tem meios, o poder legislativo tem que os encontrar e já! Não há desculpa para a situação inqualificável e vergonhosa que passa impune diante dos nossos olhos! O maior custo para Portugal é continuar tudo como antes.

É justo exigirmos os nossos impostos de volta e é justo obrigar quem nos roubou a devolver o que não lhe pertence, é justo que lhes sejam confiscados e arrestados os bens para os quais não trabalharam. A máquina fiscal e os bancos é assim que agem perante os cidadãos, quando não cumprem com as suas responsabilidades. Tiram-lhes a casa, os bens... sem dó nem piedade. Temos que ter pena de quem?... de quem nos roubou, daqueles que são os verdadeiros responsáveis pela penúria a que chegamos.

Só não vê quem não quer! E... "o mais cego é aquele que não quer ver!".

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

PePe

Estou a vê-los, todos alinhados, todos compostos, todos galanteiros, irrepreensivelmente penteados e vaidosos. Ocupavam o lugar central do coro, rodeando o orgão electrónico preto que dava um brilho especial à missa do galo, tocado pela Senhora Dona Otília!  Formavam um quadro de orgulho e promissor de uma nova geração mineira. Eu, garoto, sentado no banco lateral do fundo da igreja, ficava embasbacado de olhitos arregalados a ouvi-los cantar.

O Pepe não está na Foto?
É esta a primeira imagem que guardo do Pepe, no meio deles, igual a eles, apenas com uma diferença, usava lenço na lapela, o que lhe dava um toque muito mais distinto. O Pepe, cativou-me de imediato. Deles todos, era o que mais estava à minha altura. Dito por outras palavras, era o que estava mais próximo de mim. Os outros, eram todos do tamanho do meu pai! Estavam fora de questão. E, os dias e os anos foram correndo e o Pepe foi entrando nas nossas vidas de uma forma muito natural, estava onde todos estavam e tinha uma sensibilidade especial para lidar com os garotos, sobretudo com os mais curiosos e com os mais traquinas, fazendo autênticos milagres. Geria as nossas energias como ninguém, tanto organizava uma partida de futebol para nos quebrar os ânimos, como nos lia uma notícia do jornal e orientava a discussão que se seguia. Dava-nos responsabilidades, dava-nos tarefas e sabia premiar. Também sabia dar uns carolos como ninguém. Tinha uns nós dos dedos, rijos como um martelo! O escritório do Pepe era o local dos nossos tempos livres quando já éramos mais crescidos e, com alguma frequência, os nossos pais ligavam para o telefone do Pepe para nos darem um recado. Era oficial e sem formalismos e sabiam onde estávamos!

Foi assim que a minha amizade e a de muitos dos meus companheiros de infância e da juventude se afirmou, cada vez mais, com o nosso Pepe. Todos os que viveram na Barroca Grande se lembram de ver o Pepe rodeado de adolescentes e jovens e dos nossos irmãos, ainda crianças, que tinham por ele o mesmo fascínio que eu descrevi. O Pepe era de facto diferente em tudo e para melhor! E não são palavras de circunstância nem de rodeio acerca da diferença as que me vêm à memória, porque a sua diferença vem da sua e força e da proximidade que estabelecia com todos os que com ele se relacionavam.

Seria injusto da minha parte não lembrar a amizade do Pepe com o "grupo do coro da Senhora Dona Otília". Lembro, desse grupo, o António Serrão e reuno nele o outro lado da ponte que o Pepe estabelecia, tão bem, entre os mais novos e os mais velhos. Quer fosse no adro da igreja depois da missa, quer fosse no clube no dia da matiné, lá estava o Pepe a patrocinar os contactos com os nossos ídolos, do hóquei, do futebol, do conjunto... todos acarinhavam e respeitavam o Pepe e nós sentíamos isso. A D. Sara, esposa do Sr. Pinto, era outra amiga incondicional do Pepe e sua promotora e confidente, tinham uma relação especial e cúmplice. Agora me lembro e relaciono a possível razão desta amizade, o Sr. Ricardo, pai do Pepe, tinha a oficina de correeiro mesmo ao lado da loja da D. Sara!

É assim que lembro o Pepe e, com ele, uma parte muito importante da minha infância e da minha juventude, que inclui muitos dos meus amigos e muitas pessoas mais velhas de quem aprendi a gostar e a respeitar. O Pepe é, e continua a ser, um elo da nossa história de vida e da história da amizade que nos une, por isso, fica connosco.

Está a olhar para nós... desde cima, em grande!

domingo, 16 de setembro de 2012

O POVO respondeu ou não respondeu?




O que sinto neste momento, é uma revolta transversal contra toda a classe política que gere os nossos destinos. A fórmula em que constantemente nos embrulham é simples: obrigam-nos a discutir o passado para dividir e fraccionar, evitando que se discuta o futuro e a forma de evitar os mesmos/seus erros! 

Não discuto a importância de olhar para o passado recente, é fundamental. Não o podemos fazer é, constantemente, à custa das medidas que evitam que estes cenários se repitam, independentemente de quem nos governa.

Passos Coelho foi muito corajoso, quando no início do seu mandato afirmou, que nunca ouviríamos da sua boca a desculpabilização com o passado. Vi aí um rasgo da mudança! Vi aí a diferença e a esperança. E, vi aí um enorme desafio para a reabilitação d’ "a PALAVRA, para que quando ela é proferida possamos acreditar nela!", como ele próprio o verbalizou. Uma monumental desilusão! Um vazio de sentido e de destinatário, porque hoje ninguém acredita que estava a falar para os portugueses que o elegeram.

Não creio que os nossos problemas se resolvam apenas porque apontamos os culpados ou só porque discutirmos quem foi o mais medíocre. Podemos faze-lo, mas não é por isso que o vamos prevenir no futuro.

Aquilo que me preocupa, nesta hora, é como é que podemos ajudar Portugal a moralizar a vida pública, criando um quadro eleitoral e legislativo que funcione, independentemente de quem nos governa. Estas medidas passam, quanto a mim, pela criação dos Círculos Uninominais, pela criminalização do enriquecimento ilícito e pela inversão do ónus da prova para crimes económicos e financeiros (colarinho branco).

A criação dos Círculos Uninominais – permite que cada cidadão vote no seu representante para o parlamento e obriga a que cada candidato elabore o seu programa e o apresente aos seus “vizinhos” se quiser que votem nele. Desta forma, cada candidato é sufragado pelas suas acções em prol das populações que representa e não em prol dos partidos e dos interesses que estes representam. É por isso que ele será premiado se for reeleito ou afastado porque não cumpriu aquilo a que se comprometeu no seu programa. A diferença é simples, as listas partidárias mantêm, ciclo após ciclo, os mesmos incompetentes nos mesmos lugares. Nada muda!

A criminalização do enriquecimento ilícito  - bom, “se eu vender cabritos e não tiver cabras, de algum lado vieram!”, como diz a sabedoria do povo. De onde? Daqui decorre a medida seguinte;

A inversão do ónus da prova para crimes económicos e financeiros (colarinho branco) – a sabedoria popular é suficiente para a entender, “quem não deve, não teme”. Então?... O visado tem que provar onde fui arranjar os "cabritos" depois da justiça o ter declarado arguido! Quando se fala deste assunto, levanta-se logo um "coro de virgens ofendidas" em defesa do direito à privacidade, preocupados com o problema do linchamento na praça pública. Se reparem, estes profetas do direito à privacidade, são os mesmos que, sistematicamente, violam o segredo de justiça, quando essa violação lhes aproveita. São os mesmos que aniquilam adversários através do linchamento na praça pública. Portanto, não esqueçam, "quem não deve, não teme" porque a sabedoria do povo é universal e a destes senhores é pessoal.


Como cidadão sentir-me-ia muito mais protegido, independentemente de quem nos governa, afastando os lobbies e os "malabaristas" do poder e da vida pública. A democracia ficaria muito mais transparente e, com toda a certeza, abríamos o caminho a uma nova geração de políticos (não falo da idade!).


O meu sonho é impossível?

sábado, 1 de setembro de 2012

Gosto? Por onde andas?





Uma citação de Michel Foucault in 'As Palavras e as Coisas', serve para nos ajudar  a reflectir sobre a perversidade dos meios de comunicação e acerca da problematica  da globalização: Exprimindo os seus pensamentos em palavras de que eles não são senhores, alojando-os em formas verbais cujas dimensões históricas lh
es escapam, os homens que crêem que as suas falas lhes obedecem não sabem que se submetem às suas exigências.

Esta passagem ilustra de uma forma clara o contexto dos modelos actuais de comunicação. As  nossas possibilidades de intervenção e de auto-apropriação do mundo através de  chaves massificadas, convencem-nos de que somos detentores de um poder à nossa medida, auto-regulado, mediático e democrático. Olhando em redor, não é difícil de identificar quais os canais onde estas sensações se cruzam e se confrontam, quer através de redes sociais, quer através dos media tradicionais.

É chocante vermos como é que as cenas mais insignificantes - de que é exemplo o caso Ecce Homo de Borja, Espanha - assumem proporções gigantescas e como é que os verdadeiros factos, aqueles que mudam as nossas vidas, passam invisíveis aos olhos da multidão. Assistimos a uma comunicação sem sentidos, onde as vozes se cruzam e não se ouvem e onde, para cada um, chega o eco de um monologo de si próprio. Enquanto isso, os círculos do poder, manobram nos bastidores a informação que nos sufoca e espalham, cirurgicamente, barreiras de fumo que nos criam as sensações individuais de controlo, que só nos aprisionam, que só nos adormecem, que só nos tornam obedientes e egocêntricos, deixando-nos com a ideia de que fizemos tudo o que devíamos. É a própria "consciência" de que, depois disto, esgotámos as alternativas e assumimos uma postura de incapazes, renunciando à exteriorização da indignação, à imaginação e à liberdade de eu, ser único, pensar e agir.

Os estereótipos comportamentais criados artificialmente para servir às necessidades de manipulação colectiva e para limitarem a expressão da liberdade individual, confinam o mundo da minha acção a áreas de aparente liberdade, sem espaço e com desperdicio do tempo. Um exemplo prático onde o espaço e o tempo se desajustam claramente são os casos mediáticos - Freeport, Face Oculta, Submarinos, Portucale, relvas, privatização da RTP (...). Enquanto nos entretemos num mundo virtual a partilhar factos conhecidos a gostar, a comentar, a discutir a mediocridade, na maioria das vezes de forma solitária - pensando que influenciamos os outros; o tempo não perdoa e as decisões surpreendem-nos, provocando, de novo, ondas de indignação que nos fazem regredir a um tempo e a um espaço que já não é o nosso, deixando o caminho livre para as agendas políticas e para os interesses instalados jogarem a sua próxima cartada. Por isso, é que só pensamos nas consequências do nosso voto, depois das eleições. Nos períodos dedicados à reflexão e à construção de uma consciência cívica, empenhada e responsável, discutimos qual foi o actor político mais medíocre em vez de perceber, intervir e questionar os projectos apresentados! Afinal, temos o forum na mão e não o utilizamos... porquê?

A palavra like, ou gosto, vulgarizada no Facebook, é outro exemplo da nossa renúncia à verdadeira linguagem. Deixou de ser uma expressão de sentimentos, viva e re-construida a cada relação, para se tornar num mero símbolo de informação, massificado, que serve para dizer, simultaneamente, que gosto e que não gosto, independentemente do assunto que legenda. Já não somos donos nem dos nossos próprios mundos porque nos auto-subjugamos e porque nos rendemos ao óbvio sem o questionar e sem o des-construir. Auto-limitamos o conhecimento, porque a informação torna a nossa linguagem finita, previsível e controlada.